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Tapau√°: 50 anos construindo Igreja e Sociedade
Março 2016








Francisco Javier Jiménez durante sua etapa de missionário em Tapauá.

Testemunhos pessoais: Francisco Javier Jiménez García-Villoslada

Nasceu em Pamplona (Navarra, Espanha) em 1958. Desde 1981 é sacerdote e tem trabalhado como professor, em paróquias, formador de seminaristas e religiosos, Pastoral da Juventude e vocacional, secretário e prior provincial… No 2003 cumpre seu sonho de ser missionário em Tapauá, onde esteve dois anos e meio.

Desde crian√ßa havia querido ser mission√°rio. Com os agostinianos recoletos fui me apaixonando das miss√Ķes e fui alimentando esse sonho, que fui identificando com a Prelazia de L√°brea, porque fui conhecendo mission√°rios de l√° que nos contavam aventuras e falavam maravilhas de sua experi√™ncia, e porque alguns de meus amigos e companheiros mais pr√≥ximos foram destinados l√°. E por fim, ap√≥s 22 anos como sacerdote, me enviaram l√°. Voltava-se a produzir essa situa√ß√£o end√™mica de escassa continuidade e excessivos c√Ęmbios de religiosos. Iria aprender, n√£o a ensinar: aprender dos mission√°rios, do povo, dos pobres, das crian√ßas; disposto a me deixar evangelizar, a buscar a Deus no mundo mais pobre, mais jovem, desconhecido, misterioso e dif√≠cil.

Aprendi de meus companheiros a relacionar-me com o povo, a desenvolver-me na escola e na par√≥quia, a palpar a realidade e ver o que o povo esperava de n√≥s e o que pod√≠amos oferecer. Procurei aceitar tudo com realismo, sem decep√ß√Ķes amargas nem mentiras buc√≥licas.

Cheguei num momento de euforia construtora. A comunidade anterior tinha feito grandes planos para deixar a par√≥quia dotada para o s√©culo XXI: Centro Esperan√ßa, capelas de Santo Agostinho e S√£o Jos√©; amplia√ß√£o das salas de catequeses e da igreja matriz, casa de retiros “Cassiciaco”.

O dia a dia come√ßava √†s seis da manh√£ com missa, e a sete, as aulas de espanhol na escola, com as quais eu aprendi portugu√™s. Ia em bicicleta ou andando para dar aula e regressava suado. O almo√ßo era surpresa e logo me acostumei ao feij√£o de cada dia, ao arroz e ao peixe do Purus. Mesmo assim emagreci 16 quilos em seis meses. √Äs tr√™s da tarde, os dois primeiros meses, aula de portugu√™s com Rayma, professora do lugar. Depois ia ao aeroporto a andar de bicicleta, porque a pista de 1,5 quil√īmetros era a √ļnica superf√≠cie onde pedalar sem cuidado das crian√ßas, buracos, motos, bicicletas, cachorros‚Ķ

Chamou-me a aten√ß√£o a participa√ß√£o do povo: as crian√ßas da inf√Ęncia mission√°ria, verdadeiros protagonistas e mission√°rios; os l√≠deres das comunidades, como se envolviam nas festas; os conselhos paroquiais ao fim de m√™s, sem falhar, muito participativos e com muitas iniciativas; a novena do Natal; a Campanha da Fraternidade durante a Quaresma.

Outra descoberta impactante foi a organiza√ß√£o pol√≠tica, muito parecida a um sistema feudal. O prefeito √© como o padrinho que manda, faz e desfaz; contrata quem quer para qualquer trabalho... A Prefeitura √© a √ļnica empresa, com centenas de empregados. √Č um voto cativo: se n√£o votam ao prefeito, ficam sem emprego. Por isso a campanha eleitoral √© t√£o suja. No ano 2005 houve uma fraude, irregularidades, compra de votos, amea√ßas, viol√™ncia‚Ķ O prefeito disse no radio que agora “ia a favorecer somente aos seus amigos, aos que lhe haviam votado”. Os meus ouvidos escutaram, entre alucinado e assustado, surpreendido e indignado.

A situação religiosa era surpreendente: dividida em dois grupos, católicos e evangélicos, metade e metade, com competência, às vezes desleal, entre uns e outros. Há muitíssima influencia, pressão e troca de igreja: o povo passa de uma a outra com suma facilidade, sem fidelidade nem compromisso. Alguns católicos se enamoram e o companheiro ou companheira os obriga ir a sua igreja evangélica para seguir juntos.

O Natal apenas se celebra, somente um pouco em noite de Natal e a novena Natal em fam√≠lia, que se celebra pelos bairros e √© uma festas simples, mas bonita de uni√£o de la√ßos entre os vizinhos e familiares. A Semana Santa tamb√©m tem pouco realce. No in√≠cio da quaresma os jovens cat√≥licos e alguns evang√©licos se unem num retiro chamado Carnaval com Cristo, para fugir da sedu√ß√£o do carnaval civil, cuja magia chega at√© o mato. √Č not√°vel a encena√ß√£o da Paix√£o da Sexta Feria Santa, que representam com qualidade e entrega os jovens da Pastoral da Juventude.


Representação da páscoa juvenil na Sexta Feira Santa.


Quando se inaugurou o Centro Esperança veio o governador do Amazonas e os políticos locais e regionais quiseram obter receitas. Não quisemos envolver-nos. Fizemos a inauguração religiosa e somente assistimos ao início da comemoração com o governador, para dar-lhe as boas vindas.

As linhas pastorais estavam fixadas pela Prelazia: as Comunidades de Base eram a op√ß√£o fundamental. Re√ļnem-se cada semana para a novena, a Eucaristia, organizar suas atividades e preparar e celebrar as festas de seu padroeiro, com a colabora√ß√£o de outras comunidades. Havia um planejamento na linha da Teologia da Liberta√ß√£o e uma rejei√ß√£o da espiritualidade carism√°tica, mais sentimental, menos racional e com m√©todos parecidos aos evang√©licos.

Queria-se incentivar a participa√ß√£o e responsabilidade pastoral dos leigos; especial cuidado de crian√ßas e adolescentes; visitas aos enfermos, idosos, encarcerados (com o compromisso evangelizador da Legi√£o de Maria); aten√ß√£o progressiva √† pastoral familiar, pelos perigos de infidelidade e de ruptura da conviv√™ncia e c√Ęmbios de parceiros.

Uma novidade que se introduz foi a Eucaristia em cada comunidade da cidade durante a semana. Antes era na matriz às seis da manhã com pouquíssimas pessoas. Refletimos e ficamos de acordo que cada dia se celebraria numa comunidade diferente, e frequentemente participavam mais de 30 pessoas. Faltava muito por consolidar, mas a devoção e o apreço pela Eucaristia ia crescendo, num povo pouco acostumado e muito descuidado neste aspecto central e que, vivendo nos seringais, havia mantido a fé a base da devoção aos santos.

Os tapauaenses destacam pela sua familiaridade, hospitalidade, acolhida. N√£o custa fazer amigos. Abrem-te as portas, os bra√ßos e o cora√ß√£o. Fazem-se amigos e se deixam querer. Custa-lhes compreender a gente que chega de longe, com outra cultura, educa√ß√£o, costumes, l√≠ngua. E a n√≥s nos custa adaptar-nos, entende-los como s√£o, com seus valores e suas limita√ß√Ķes. Existe o perigo de querer “converte-los”, que aprendam minha forma de ver as coisas, quando n√≥s vamos para aprender, e eles tem muito a dar, ensinar e transmitir.

√Č um povo muito jovem, quase adolescente, com vontade de crescer. √Č bonito, esperan√ßados. Dar aulas na escola permite conhecer e ser conhecido pela maioria das crian√ßas e suas fam√≠lias. O Centro Esperan√ßa oferece encontro e rela√ß√£o, apostolado, um are√≥pago para a evangeliza√ß√£o.

Uma de suas maiores conquistas é a educação: de ser um povo analfabeto temos passado a uns jovens cada vez mais e melhor formados, que em quando podem se vão a Manaus ou a Sul do de Brasil a buscar a vida. Antes era impossível e impensável: somente os filhos de comerciantes e políticos podiam ter esse luxo. Os programas de bolsas do governo de Lula da Silva melhoraram muito a situação das famílias mais pobres e necessitadas.

√Č uma igreja com poucas tradi√ß√Ķes, com muita m√ļsica, desejos e criatividade, com vontade de ser protagonistas de seu futuro. Amam a Igreja, a tem como pr√≥pria, colaboram, participam. O dizimo √© uma das conquistas: compromisso de f√© com Deus e com minha Igreja; e d√£o realmente o dez por cento de seu sal√°rio, √†s vezes min√ļsculo.

Fora do Amazonas, a miss√£o tem gancho e atrativo. √Äs vezes podemos pecar de um desconhecimento que leva ao idealismo, aventuras her√≥icas, longe da vida rotineira e estressante de ocidente. Mas entre os freis se foi perdendo esse conceito e essa imagem. Tamb√©m n√£o se aprecia o mesmo entusiasmo mission√°rio, cheio de vontade, generosidade e disponibilidade. Inclusive alguns religiosos veem com desconfian√ßa e receio esse trabalho: “a verdadeira miss√£o est√° na Europa. Os mission√°rios vivem como reis, fazem o que lhes da vontade, coisas que em outros lugares n√£o se pode”, costumam dizer alguns, n√£o sei se com suficiente informa√ß√£o e objetividade.

Gra√ßas a Deus, sempre h√° religiosos que apoiam com sua ora√ß√£o e lembran√ßa, seus detalhes (una chamada, uma carta, um correio eletr√īnico, uma coleta, um gesto). Sent√≠amos o apoio, tanto do Conselho Provincial, como dos minist√©rios; alguns bem pequenos como as par√≥quias de Barillas e Tulebras (Navarra), que colaboravam com quantias pequenas mas valiosas, como as da vi√ļva do evangelho.

Por parte da fam√≠lia os maiores problemas eram a distancia e a falta de comunica√ß√£o. Somente nos in√≠cios do s√©culo XXI chegou o telefone e internet, mesmo que muito lenta e com muitas falhas. Puseram-nos em contacto com o mundo. A fam√≠lia sofria em sil√™ncio essa aus√™ncia, mas sent√≠amos seu apoio, sua admira√ß√£o, sua presen√ßa orante e carinho sustentador. √Č um dos esteios do mission√°rio. E se notava a satisfa√ß√£o, orgulho e admira√ß√£o que sentiam para n√≥s.

Muitas pessoas, alguns conhecidos e muitos desconhecidos, apoiavam o trabalho. A monjas contemplativas Agostinianas Recoletas com sua oração contínua, generosa, silenciosa, fecunda, dolente e evangelizadora. Os ministérios sensibilizados, que semeiam espírito missionário entre os fieis. Os voluntários, que começavam a aproximar-se a esse mudo desconhecido e misterioso.

Em minha vida religiosa e pessoal, Tapau√° tem significado um antes e um depois. Tinha necessidade dessa experi√™ncia, apesar de que tenha sido curta. Aprendi, chorei, sofri, curti, amadureci e cresci muito. Despojei-me de coisas e adquiri e aprendi outras novas. Minha f√© cresceu entre os pobres. Que exemplos de entrega, de fidelidade a Deus, de f√© aut√™ntica, de sentido crist√£o da vida, de esperan√ßa, de amor, de generosidade! Ajudou-me a valorizar a comunidade, imprescind√≠vel para viver como recoleto; a querer e valorizar ao irm√£o, apesar de suas defici√™ncias e falhas. A doar-me aos demais com mais generosidade. A vibrar com uma Igreja mais jovem, aprender tudo num contexto muito diferente ao de sempre. Foi duro e, por sua vez enriquecedor. Ter que aprender tudo isso sup√Ķe dificuldades, paci√™ncia, choques, mas √© muito positivo. Abre a mente, alonga o horizonte, dilata o cora√ß√£o. Faz crescer e ver as coisas de uma outra forma, com novos olhos.

Sei que a vida n√£o √© f√°cil por l√°. H√° problemas, obst√°culos pol√≠ticos, sociais, geogr√°ficos, de trabalho, de cultura‚Ķ Mas Tapau√° e seu povo tem todo o futuro pela frente. N√£o podem presumir do passado, mas tem muita Hist√≥ria por diante para construir. Tem o tesouro da juventude, que permite sonhar, que da for√ßas e capacidade para resistir e superar as dificuldades. Animo-os a crescer e a consolidar-se como sociedade; a ir ganhando estabilidade e credibilidade social e pol√≠tica; a continuar combatendo erros, abusos, lacras, privil√©gios. Seguir adquirindo e reivindicando seus direitos, mais justi√ßa, uma educa√ß√£o de maior qualidade, melhor sa√ļde, uma mais justa distribui√ß√£o das riquezas, maior liberdade, maior independ√™ncia.

√Č um povo muito religioso. Em Cristo tem o Caminho, a Verdade e a Vida. Que n√£o se deixem, que n√£o permitam que ningu√©m os leve por outros caminhos que degradam a dignidade, que perturbam a paz, que prejudicam aos demais, que destro√ßam a fam√≠lia, que impedem o desenvolvimento. Que cres√ßam em toler√Ęncia, em apre√ßo aos valores do outro, em respeito, em amor √† verdade, em fazer juntos projetos a favor das crian√ßas, dos jovens dos enfermos e dos mais pobres.

Parabenizo á paróquia de Tapauá por suas Bodas de Ouro! Desde aqui parece que não é nada; desde lá é toda uma vida, vivida muito apressa e intensamente. Convido-os a que valorizem seu passado: o esforço dos que lhes levaram a fé, lutaram por criar essa Igreja, deixaram sua vida servindo-os. Que desculpem as falhas e sejam generosos no perdão e apreço de quem temos passado por lá e fiquem com o bom (alguma coisa boa ficará) e esqueçam do mal.

Que aprendam deles a ser solidários, altruístas e caritativos, a não se fechar em seus próprios interesses mas buscar os interesses de Cristo e da comunidade toda. Que cresçam em maturidade e responsabilidade, em bom uso da liberdade, em profissionalismo, em formação. Que não percam seus valores, sua alegria, sua simplicidade, o sorriso invejável das crianças, sua hospitalidade, sua laboriosidade, sua capacidade de sacrifício e de sofrimento. Que aspirem a ser tudo o que Deus quer que sejam; tudo o que tem sonhado para eles.



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