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Tapau√°: 50 anos construindo Igreja e Sociedade
Março 2016

Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita: A questão indígena

Na enorme extens√£o do munic√≠pio de Tapau√° vivem diversas etnias ind√≠genas √†s quais a Igreja tem atendido com equipes itinerantes de volunt√°rios e profissionais do Conselho Indigenista Mission√°rio (CIMI). Em ocasi√Ķes esta aten√ß√£o se tem feito desde L√°brea, mesmo que na par√≥quia tenha pessoal qualificado do CIMI. Uma das mission√°rias Oblatas da Assun√ß√£o dedica-se tradicionalmente a esta √°rea de trabalho.

As primeiras aproxima√ß√Ķes entre Recoletos e ind√≠genas foram t√≠midas e reduzidas √†s desobrigas. Segundo a proced√™ncia dos religiosos (brasileiros ou estrangeiros) e a consci√™ncia de cada √©poca, havia um modo diferente de “abordar” a quest√£o ind√≠gena. Durante s√©culos, no Brasil os ind√≠genas eram considerados pessoas vagas, ignorantes, com tend√™ncia √† viol√™ncia, alco√≥licos, “incivilizados”. Nem a popula√ß√£o de Tapau√° nem os primeiros religiosos estiveram √† margem destes preconceitos, nem faltaram epis√≥dios de viol√™ncia de e com ind√≠genas.

Por outro lado, o mundo indígena foi um dos objetivos dos evangélicos estrangeiros que, financiados pela Sociedade Linguística, organização evangélica multiconfessional, se lançaram a conviver com estes povos, quando ainda não havia leis de proteção, nem terra delimitadas, com o objetivo de normalizar suas línguas e traduzir a Bíblia para o idioma dos indígenas.

A partir de 1970 se come√ßa a tomar consci√™ncia da preserva√ß√£o de l√≠ngua, cultura e terras ind√≠genas, como uma riqueza de especial import√Ęncia e n√£o como res√≠duos do passado n√£o civilizado. As novas leis expulsam os evang√©licos das aldeias ind√≠genas e a Igreja Cat√≥lica trabalha na defesa dos direitos humanos e delimita√ß√£o de territ√≥rios multiplicando os encontros.

Crianças Apurinã da aldeia de São João.

Uma data marca “um antes e um depois” neste trabalho eclesial em Tapau√°: a Assembleia Ind√≠gena do dia 30 de julho de 1977, na aldeia Apurin√£ de Tauamirim. Pela primeira vez se esquematiza um plano de aten√ß√£o sanit√°ria, educa√ß√£o e delimita√ß√Ķes das terras como √ļnico modo de sobreviv√™ncia dos Povos Ind√≠genas. Desde esse ano o CIMI envia volunt√°rios √† Prelazia.

A d√©cada de 80 foram anos de ferro, fogo e sangue na Amaz√īnia brasileira, pelos interesses econ√īmicos sobre as terras ind√≠genas. Em 1983, na Primeira Assembleia Geral da Prelazia, a quest√£o ind√≠gena √© uma das quatro prioridades. Nesse tempo (28/4/1985) √© assassinada em L√°brea a irm√£ Cleusa Carolina Rody Coelho, Mission√°ria Agostiniana Recoleta, martirizada pelo seu trabalho, pela paz entre ind√≠genas e n√£o ind√≠genas, hoje em processo de beatifica√ß√£o.

Dia 13 de novembro de 1989 se cria uma equipe pr√≥pria da Pastoral Indigenista para a aten√ß√£o especializada a algumas etnias. Um religioso residente em L√°brea, Miguel P√©rez, formar√° parte dessa equipe. Entre suas atribui√ß√Ķes est√° a exclusividade da aten√ß√£o pastoral e social a ind√≠genas, pelo qual a Par√≥quia de Santa Rita desde ent√£o, levar√° a efeito, tarefas de apoio e visitas mais frequentes e centradas nas aldeias cat√≥licas, com motivo das festas de seus padroeiros.

Na d√©cada 1990-1999 continuaram as Assembleias dos Povos Ind√≠genas. Em 1994 a Prelazia come√ßou a registrar no Cart√≥rio o territ√≥rio dos povos dos rios Tapau√° e Cunhu√£, in√≠cio das gest√Ķes para a delimita√ß√£o posterior destes territ√≥rios, pelo Governo Federal.

Outro ponto de reflex√£o foi o Encontro dos Povos da Amaz√īnia de 18 ao 20 de julho de 2005, que teve sua segunda edi√ß√£o de 11 a 13 de novembro. At√© ent√£o, os habitantes da zona rural haviam estado separados em ind√≠genas e ribeirinhos, com suas rivalidades, algumas com grande viol√™ncia. Com o tempo, entenderam que t√™m muito em comum, e que juntos poderiam fazer frente para conseguir atender as suas necessidades educativas, de sa√ļde, organizativas, da terra e outras.

Em Tapauá, com cada uma das etnias houve modos distintos de relação e uma Historia concreta. Um Agostiniano Recoleto que melhor conhece a realidade tapauaense fez um profundo estudo do trabalho pastoral dos Agostinianos Recoletos entre as etnias indígenas na Prelazia de Lábrea, ao que se pode aceder neste enlace.



Aldeia Apurin√£ de S√£o Jo√£o, muito perto do centro urbano de Tapau√°.

Povo Apurin√£

Quando se fundou o município de Tapauá, dentro de seus limites ficaram duas aldeias Apurinã bem conhecidas: a de São João e a de Foz de Tapauá, muito perto da então maior população não indígena. São João mantinha uma relação cordial e contínua com as poucas famílias que viviam na Foz de Ipixuna, a futura cidade de Tapauá.

Em mar√ßo de 1963 come√ßou a viver com os Apurin√£ de S√£o Jo√£o, o evang√©lico Wilbur Pickering. Aceito na aldeia, ajudou aos ind√≠genas a comercializar seus produtos, como mandioca, inhame, batata, milho verde. A nova Prefeitura os assistia na sa√ļde e produ√ß√£o agr√≠cola.

O caso da aldeia da Foz de Tapau√° foi bem diferente. Tinha menos tempo de exist√™ncia e provinham do alto Purus, quase sem rela√ß√Ķes com a popula√ß√£o n√£o ind√≠gena. Converteram-se em protagonistas de uma est√≥ria de terror e morte. Em 1962 uma epidemia de sarampo ocasionou v√°rias mortes na aldeia ind√≠gena. Um rezador contratado por eles para acabar com a doen√ßa, culpou um comerciante n√£o ind√≠gena,de haver feito um malef√≠cio. Umas fontes dizem que a acusa√ß√£o era para justificar seu fracasso contra a enfermidade; outras, que o fez por mandato e pago por outro comerciante n√£o ind√≠gena da concorr√™ncia.

Os Apurinã, seguindo sua cultura ancestral, assassinaram oito pessoas da família do comerciante, indicado como autor do malefício, e incendiaram sua casa. Ele se livrou da morte por não estar em casa nesse momento, o que não aconteceu com vários membros de sua família e de trabalhadores.

Uma semana depois chegaram os agostinianos recoletos Saturnino Fern√°ndez e Vict√≥rio Henrique Cestaro para fazer os funerais pelas v√≠timas. A pol√≠cia militar deteve o rezador e outros 22 ind√≠genas que participaram no crime. Segundo fontes, a pol√≠cia matou a tr√™s apurin√£ que tentaram fugir. O tenente, encarregado das pris√Ķes levou os detidos a Manaus, e faleceu poucos dias depois, v√≠tima de uma mal√°ria contra√≠da durante a opera√ß√£o.

Em abril de 1963 os ind√≠genas foram liberados pelo h√°beas corpus invocado pelo Servi√ßo de Prote√ß√£o ao √ćndio (SPI), que os tirou do xadrez e os levou a Tapau√°, provocando medo entre a popula√ß√£o. Os religiosos os recebem “dentro de nosso minist√©rio de paz e perd√£o”, tal como escrevem. Alguns creem que √© um convite “a que fiquem na cidade” e provoca tens√Ķes.

O SPI decide deslocar os acusados da matança para aldeia de São João, para retirá-los do lugar do crime. Antes, leva-os de volta até sua aldeia para buscar suas famílias. No ínterim, os tapauaenses debatem e se negam a que os índios acusados de um grave crime, vivam tão perto. Quando 31 apurinã com suas famílias (mais de cem pessoas), na quinta feira santa de 1965, chegam em barco a Tapauá, um grupo de homens armados os impede desembarcar.

O recoleto Victório Henrique Cestaro ajuda na negociação e finalmente desembarcam em Tauamirim, a umas horas de barco, onde criam uma nova aldeia. Desde então já não houve mais enfrentamentos armados e se delimitaram as terras de ambas as aldeias.

Esquema da √ļltima maloca Juma.

Povo Juma

Em fevereiro de 1964, um comerciante envia uma expedição ao pequeno Rio Onça, afluente do Itaparanã, para extrair sorva. Todos sabiam que lá poderiam encontrar-se com os Juma, com os quais, em anos anteriores já se haviam relatado encontros de certa tensão. Um mês depois, começam a chegar rumores não confirmados de que tinha havido uma grande matança de Jumas.

Wilbur Pickering, o missionário evangélico que vive com os Apurinã, decide sobrevoar a região; sobem no avião ele, o missionário evangélico Jack Walckey e o prefeito, Daniel Albuquerque, quem serve de guia para o piloto. Durante o voo divisam a maloca Juma completamente abandonada. Pickering denunciou este fato, mas nenhuma autoridade quis investigar ao respeito.

Quatorze anos depois, em 1978, o massacre do Povo Juma foi manchete dos jornais com acusa√ß√Ķes diretas sobre pessoas assinaladas como culp√°veis, entre elas o prefeito e v√°rios vereadores, com as implica√ß√Ķes pol√≠ticas que a acusa√ß√£o tinha. Isto provocou por primeira vez a aten√ß√£o das autoridades. A Pol√≠cia Federal abriu inqu√©rito, investigou e encontrou um dos autores materiais dos assassinatos. Mas n√£o houve nenhum processo posterior.

Dia 17 de agosto de 1981, o agostiniano recoleto, Jos√© Luis Villanueva, teve a oportunidade de visitar os √ļltimos Juma no seu ref√ļgio do R√≠o Joar√≠, em Canutama. Restaram sete Jumas que viviam sem nenhum tipo de conex√£o ao mundo moderno exceto umas poucas roupas. “Vivem como poderia viver faz tr√™s ou quatro mil anos [‚Ķ]. O fogo ainda se acende com os paus no ro√ßado”.

Em janeiro de 1992 se decretou a extin√ß√£o oficial dos Juma. Uma on√ßa matou a Kar√©, √ļnico e √ļltimo homem em idade reprodutiva. Ficaram tr√™s meninas 8, 10 e 12 anos, e dois casais de idosos. Em 1998 foram trasladados √† aldeia Uru-eu-wau-wau do Alto Jamary, onde as tr√™s jovens se casaram com indiv√≠duos dessa outra etnia. Em 2010 ficava somente um juma.



Povo Zuruah√£

Dia 7 de maio de 1980 pela primeira vez se contata fisicamente com os Zuruahã. Sua maloca foi localizada em abril de 1979 num voo em que participava o agostiniano recoleto José Luis Villanueva. No dia seguinte, dirigidos por Jesus Moraza num barco da paróquia, tentam chegar até eles, mas dado que há pouca água, por ser verão, tem que abandonar o empenho.

Somente um ano depois se consegue o primeiro contato, não isento de muita tensão, pelo desconhecimento absoluto de sua língua. Inicia-se uma relação progressiva, em que participaram dois agostinianos recoletos como membros do CIMI, até que se delimitou sua terra.

Os Zuruah√£, cerca de 150 pessoas, tem sido motivo de estudos lingu√≠sticos e sociol√≥gicos relativos ao suic√≠dio, como uma das caracter√≠sticas de sua cultura. S√£o sem d√ļvida, os habitantes de Tapau√° mais medi√°ticos em √Ęmbito global e mais desconhecidos na √°rea local.



O seguinte link inclui mais vídeos sobre o povo zuruahã.


Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita
A quest√£o educativa


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