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Tapau√°: 50 anos construindo Igreja e Sociedade
Março 2016


Primeira visita de um prior provincial a Tapauá. À direita, com hábito branco, Victorio Henrique Cestaro, com o provincial Agostinho Belmonte, de hábito negro.

Cestaro deixou Tapauá em 1970 para dedicar-se à política e a advocacia. Faleceu em 2011.

Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita: Grandes períodos de ausência ou solidão

A solid√£o do mission√°rio

A falta de religiosos para formar as comunidades e atender todas as frentes do trabalho pastoral, social e evangelizador, tem sido um dos problemas mais graves da Prelazia, ao longo dos anos. H√° v√°rios motivos pelos quais √© necess√°rio um n√ļmero adequado de mission√°rios em cada comunidade religiosa do Amazonas brasileiro.

Est√£o as grandes dist√Ęncias que alongam cada viagem. Os mission√°rios em sua maioria, n√£o s√£o brasileiros e devem viajar com frequ√™ncia, devido aos requisitos e burocracias de sua estadia legal no pa√≠s como tamb√©m para descansar e visitar suas fam√≠lias em seus pa√≠ses de origem. E cada visita √†s comunidades rurais, implica aus√™ncia de casa, entre uma e quatro semanas vivendo no barco.

Se a comunidade tem dois religiosos, o que tem acontecido com frequência, é quase seguro que 50% do tempo passam sozinhos, sem se ver, e inclusive há épocas sem nenhum religioso na sede paroquial. Se são três, os espaços de vida solitária diminuem, mas não desaparecem. Uma vez formada a comunidade, a primeira grande ausência, se deu de 14 de janeiro a 2 de abril de 1965. Quase quatro meses, com um religioso angariando fundos no sul do Brasil e o outro na Assembleia de Cáritas em Manaus.

As f√©rias dos religiosos tem servido para falar de Tapau√° em lugares muito long√≠nquos. Cestaro, j√° em 1969, fala da miss√£o nos Estados de S√£o Paulo e Rio de Janeiro. Pediu apoio em par√≥quias e templos, em centros sociais e col√©gios, e tamb√©m em jornais e revistas, por radio televis√£o (canais 2, 4 e 9 da capital paulista). Voltou √† Prelazia com material escolar, roupas e 15 milh√Ķes de cruzeiros (74.000 euros de hoje) para a evangeliza√ß√£o.

Em junho de 1970, Cestaro se despede da cidade e inicia uma nova vida em Manaus; seus companheiros da primeira comunidade também já não estavam, motivo pelo qual a paróquia ficou sem religiosos durante cinco meses.

Volunt√°rios para atender a miss√£o

Dia 8 de março de 1970, o prior geral da Ordem, Luis Garayoa, envia una carta a todos os agostinianos recoletos para expressar sua preocupação pela missão de Lábrea. Pede encarecidamente voluntários que ajudem a Província de Santa Rita, encarregada de coordenar a missão, para que o serviço pastoral e a vida religiosa estejam assegurados:

“J√° n√£o √© somente nosso dever de prior geral; j√° n√£o se trata unicamente de obedecer ao disposto no Cap√≠tulo Geral: temos sido invitados formalmente em nome e por mandato do Santo Padre a enviar urgentemente oito mission√°rios para L√°brea, onde atualmente se encontram muito poucos, e se nos tem indicado claramente que devemos interessar a toda a Ordem nisso”.


Dito de outro modo, a Santa S√© havia chamado a aten√ß√£o √† Ordem por desatender a miss√£o, com a frequente falta de religiosos, para o trabalho pastoral e viver a vida religiosa. Ofereceram-se 25 volunt√°rios, dos quais 15 pertenciam √† Prov√≠ncia de S√£o Nicolau de Tolentino. Do total, foram selecionados oito. No final de 1970 chegaram tr√™s religiosos espanh√≥is a Tapau√° para reiniciar o trabalho: Miguel Angel Gonz√°lez, Francisco Pi√©rola e Jesus Moraza. Pi√©rola era entrevistado pela revista interna de sua Prov√≠ncia e deixava assim suas impress√Ķes:

“Vou-me por muitas raz√Ķes √† miss√£o de Brasil: algo de quixotismo e desejo de aventura Crist√£, um pouco porque aqui sobra pessoal e tem quem possa ocupar meu lugar. Eu tinha pedido, faz muito tempo, ao prior geral ser voluntario para o Amazonas. Minha maior dificuldade est√° na fam√≠lia, porque meus pais s√£o j√° idosos e meu outro irm√£o agostiniano recoleto se tem ido a nossa miss√£o de Taiwan. Mas tenho a convic√ß√£o de que h√° que fazer triunfar o esp√≠rito no meio de um mundo materializado e materialista”.


Florentino Zabalza.

Saturnino Fern√°ndez, segundo pela direita, em Tapau√°, nos anos 70.

Jes√ļs Moraza, antes de ser bispo da Prelazia, visitando uma comunidade ind√≠gena.

Naqueles tempos na miss√£o nem sequer tinha correio. As cartas eram enviadas √† Porto Velho, capital do Estado de Rond√īnia, √† Caixa Postal de um amigo dos religiosos que logo levava as correspond√™ncias para L√°brea; dali as cartas seguiam para Tapau√° em barco, quando era poss√≠vel. E as respostas tinham o mesmo caminho de volta. Conclus√£o: eram necess√°rios meses para o percurso completo de emiss√£o, receber e responder.

Após quase três anos sem bispo, Florentino Zabalza, missionário dos que haviam respondido ao chamado do prior geral, quando estava de visita em Tapauá, recebeu a notícia de sua nomeação de bispo, por radio fonia, e aceita. Era julho de 1971. Zabalza pertencia à Província de Nossa Senhora da Consolação, e será bispo de Lábrea até 1994.

Em 1972 a comunidade volta a estar formada por somente dois religiosos. Saturnino Fern√°ndez chega a Tapau√° como p√°roco, acompanhado de Moraza. Esteve at√© 1975, e algumas fontes relatam que ent√£o recebeu do mission√°rio evang√©lico Wilburg Pickering o apelido de ‚ÄúVelho tigre do Purus‚ÄĚ. Mesmo que tentou por em seu sentido pejorativo, se converteu num reconhecimento de aud√°cia e trabalho corajoso em todos os √Ęmbitos de Saturnino.

Dia 7 de abril de 1980 a Ordem dos Agostinianos Recoletos reorganiza a aten√ß√£o √†s miss√Ķes. Atrav√©s de um acordo conjunto, as quatro comunidades da Prelazia e a casa de Manaus passam a depender, em sua gest√£o, pessoal e recursos √† Prov√≠ncia de S√£o Nicolau de Tolentino. Era a terceira e definitiva mudan√ßa de Prov√≠ncia encarregada da miss√£o. Os religiosos na Prelazia esperam resultados da nova configura√ß√£o:

“Fazemos votos para que esta Prelazia assumida recentemente pela nossa Prov√≠ncia, com tanto carinho, n√£o continue em estado prec√°rio, mas que se veja refor√ßada com o apoio e entusiasmo mission√°rio de tantos religiosos nossos, que anelam uma vida mission√°ria de vanguarda numa regi√£o como a nossa: este imenso Amazonas t√£o rico em promessas para o futuro, mas t√£o desprovido de recursos na atualidade”.

Quase dez anos depois, a falta de pessoal volta a ser grave, e o prior provincial, Marciano Santervás, envia um oficio dia 27 de setembro de 1988 pedindo voluntários. Nesse momento, das quatro comunidades da Prelazia, três estão com um só religioso, incluindo Tapauá, onde vive e trabalha Jesus Moraza.

“O grito de pedido de ajuda √© dirigido a todos os religiosos da Prov√≠ncia, n√£o somente aos de Espanha, mas tamb√©m aos do M√©xico, Filipinas, Inglaterra e Costa Rica. Ningu√©m deve escusar-se em falsas raz√Ķes e deixar a responsabilidade a outro. Que cada um deixe ressoar no santu√°rio de sua consci√™ncia a voz do Esp√≠rito e contemple na paz, as necessidades da Igreja de Cristo em L√°brea, parcela que se nos ha confiado”, diz o prior provincial em seu oficio.

Nesse mesmo ano, desde Tapau√° num informe, explicam:

“Para uma aten√ß√£o med√≠ocre, pelo menos uma visita ao ano a cada comunidade, necessitar√≠amos pelo menos quatro meses de viagem (um pelo Purus e tr√™s pelos rios Tapau√°, Cunhu√£, Piranha, Jacar√©, Ipixuna e Itaparan√°). Se queremos atender um pouco melhor o Purus, onde j√° se tem organizado 34 grupos de reflex√£o, necessitar√≠amos mais um m√™s de viagem. Seriam, pois cinco meses pelos rios. Mas, como combinar a vida pastoral e nossa vida comunit√°ria, quando contamos com t√£o poucos religiosos em nossas casas?”.

Entre as novidades, o prior provincial oferece uma nova modalidade de ‚Äúmission√°rio‚ÄĚ por um tempo mais limitado, entre oito e doze anos, em vez da f√≥rmula tradicional que se aplicava, que normalmente fazia com que um destino mission√°rio fosse para praticamente a vida toda. Desde ent√£o se tem aplicado com √™xito. S√£o numerosos os religiosos que tem passado pela miss√£o de L√°brea durante uns anos e depois voltaram ao trabalho pastoral em outras tarefas e pa√≠ses.

As consequ√™ncias positivas t√™m sido muitas. Hoje existe um maior conhecimento da miss√£o porque mais religiosos viveram na pr√≥pria carne e n√£o por informa√ß√Ķes de terceiros. Ampliou-se o tom vital, com religiosos que chegavam na miss√£o depois de haver experimentado, ou haver sido formados para muitos outros servi√ßos pastorais ou sociais; assim como a chegada de mission√°rios de maior idade contribuindo com maturidade e experi√™ncia.

Encontro de mission√°rios em 1985 na sede da Prelazia em L√°brea.

Tamb√©m tem havido consequ√™ncias menos positivas: n√£o se tem conseguido a presen√ßa permanente de tr√™s ou mais religiosos em cada posto mission√°rio. A rotatividade continuada faz com que muitos religiosos nem sequer tem tempo para aclimatar-se, inculturar-se, conhecer de perto o povo e oferecer um melhor servi√ßo, sem restri√ß√Ķes.

Os apelos dos superiores pedindo mission√°rios volunt√°rios para a Prelazia de L√°brea nunca tem parado. Repetiram-se em setembro de 1997, por parte de Miguel Mir√≥, prior provincial:“Me sinto no dever de fazer uma chamada √† nossa consci√™ncia mission√°ria: se precisam religiosos para nossa miss√£o de L√°brea”.

Tapauá, lugar de formação

Em dezembro de 1973 assume a forma√ß√£o de estudantes de teologia j√° professos, na Prov√≠ncia de Santa Rita, o agostiniano recoleto Francisco Javier Hern√°ndez, quem 17 anos depois, seria nomeado bispo de Tiangu√°, no estado brasileiro do Cear√°. Pertence √† Prov√≠ncia de S√£o Nicolau e assume como volunt√°rio esse posto de formador em Franca, no Estado de S√£o Paulo. Uma de suas preocupa√ß√Ķes essenciais √© a forma√ß√£o destes religiosos no amor √†s miss√Ķes. Por isso inicia um programa de intercambio, enviando religiosos √† miss√£o de L√°brea, durante curtos per√≠odos, para que completem sua forma√ß√£o, com uma experi√™ncia mission√°ria.

Religiosos em formação inicial visitam e convivem com a comunidade de Tapauá. Ano 2010.

Nos √ļltimos anos se tem reiniciado a experi√™ncia sob a coordena√ß√£o de Nicol√°s P√©rez-Aradros, quem foi p√°roco em Tapau√° e agora √© prior provincial da Prov√≠ncia de Santa Rita. Jovens di√°conos dessa prov√≠ncia tem tido a oportunidade de fazer experi√™ncia na miss√£o amaz√īnica, colaborando com as comunidades durante estadias n√£o muito longas.

Al√©m disso, a Prov√≠ncia de S√£o Nicolau de Tolentino tamb√©m tem dois programas de forma√ß√£o deste estilo. No primeiro, religiosos de votos simples passam f√©rias nas comunidades amaz√īnicas compartilhando vida e miss√£o com as comunidades, em ocasi√Ķes acompanhados de seus formadores. Num segundo programa, antes de fazer a Profiss√£o Solene, os religiosos que terminaram os estudos teol√≥gicos tem uma experi√™ncia de inser√ß√£o em diversas comunidades da Prov√≠ncia. Tapau√° j√° tem recebido algum deles.

Para evitar a solid√£o e facilitar a forma√ß√£o, desde 1989 os religiosos da Prelazia se re√ļnem duas vezes por ano, em janeiro e julho. Todos os mission√°rios, incluindo os que vivem e trabalham em Tapau√°, participam desses encontros fraternos que servem tamb√©m para a coordena√ß√£o de atividades e a defini√ß√£o comum de prioridades e programas pastorais.

Voca√ß√Ķes locais

A Prelazia de Lábrea e a Paróquia de Santa Rita de Tapauá sempre tiveram, como religiosos e sacerdotes, pessoas nascidas fora do Amazonas. Brasileiros do sul do país (especialmente dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo) e estrangeiros da Espanha, Costa Rica, Escócia, Filipinas, do México e Estados Unidos, tem sido os pastores locais.

Reuni√£o da equipe de pastoral vocacional paroquial em 2002.

A forma mais desejada de evitar a falta peri√≥dica de pessoal, tem sido desde sempre, a promo√ß√£o de voca√ß√Ķes locais. Mas o desejo nunca tem conseguido ser satisfat√≥rio. S√£o oriundas da Prelazia de L√°brea algumas religiosas Mission√°rias Agostinianas Recoletas e alguns maristas. Nem os Agostinianos Recoletos nem o ansiado clero local como tal, tem conseguido surtir-se de pessoas nascidas e educadas na Prelazia.

Em 1982 se deu a primeira tentativa, com um seminarista de Tapauá que viveu na comunidade Recoleta de Canutama. Esta experiência, assim como outras duas de 1988 e 2008, não tiveram êxito. Um dos candidatos tapauaenses chegou até o noviciado, na Espanha, e abandonou antes de professar.

Tem-se tentado implantar a cultura vocacional, com equipes de Pastoral Vocacional. Deste trabalho tem surgido alguns jovens especialmente comprometidos, pessoas mais formadas, mas em nenhum caso se tem conseguido um fruto concreto de vida sacerdotal ou religiosa. As causas s√£o diversas e compreens√≠veis. √Č dif√≠cil ter pessoas com suficiente forma√ß√£o para chegar a um processo de discernimento com expectativas reais de assumir a sa√≠da do lar e, talvez, da regi√£o. A educa√ß√£o √© uma tarefa pendente; as fam√≠lias est√£o desestruturadas, o ambiente n√£o oferece esta alternativa como vi√°vel, e os religiosos tem tantas necessidades pastorais e trabalhos, que n√£o tem podido dedicar tempo ao acompanhamento personalizado.

Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita
As prioridades pastorais


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