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Tapau√°: 50 anos construindo Igreja e Sociedade
Março 2016

√ćndios Apurin√£ da aldeia de S√£o Jo√£o, em Tapau√°.

Recolhida de l√°tex na regi√£o do Purus.

Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita: Um hábitat difícil para o ser humano

Na selva amaz√īnica os ind√≠genas desenvolvem um sistema de vida de acordo com o entorno, mas sem grandes produ√ß√Ķes, devido ao clima, a falta de terra f√©rtil n√£o inund√°vel, as dificuldades de transporte e comunica√ß√Ķes, a prolifera√ß√£o de enfermidades e animais perigosos e a impossibilidade de criar economias al√©m das de sobreviv√™ncia.

Os ciclos da borracha

A economia trocou este equil√≠brio: quando a selva se tornou alvo de interesses econ√īmicos, deu-se o incremento populacional que ocorreu em dois √ļnicos per√≠odos, coincidentes com a comercializa√ß√£o da borracha natural: de 1879 a 1912 e de 1942 a 1945. Apenas 35 anos que derivaram no impulso da Amaz√īnia brasileira e de suas tr√™s maiores cidades (Bel√©m-PA, Manaus-AM e Porto Velho-RO), assim como a compra do Acre, antes territ√≥rio boliviano. Os Agostinianos Recoletos se viram indiretamente condicionados por estes ciclos da borracha e chegaram tamb√©m ao Amazonas e Par√°. Hoje continuam l√° evangelizando. Membros da Ordem s√£o os bispos de Rio Branco-AC, L√°brea-AM, Maraj√≥-PA e Camet√°-PA, Diocese e Prelazias amaz√īnicas.

O l√°tex procede da √°rvore Hevea Brasiliensis, que, com um corte, sai um l√≠quido branco com uns 35% de hidrocarbonatos. Em sua forma natural n√£o existe nas “col√īnias” ou bosques, mas em unidades separadas por grandes dist√Ęncias. O l√≠quido recolhido ‚Äďo leite- n√£o pode ser molhado com √°gua. Para evitar isso, como chove muito na selva, o seringueiro faz uma corrida fren√©tica de √°rvore em √°rvore, no meio do mato mais fechado, para colher o l√°tex. O lucro era para uns poucos que obtiveram os direitos de transa√ß√£o, venda e beneficiamento, ao mesmo tempo em que milhares sucumbiam no mato.

Em 1912, os ingleses inauguram suas planta√ß√Ķes industriais de sementes brasileiras da H√©vea, na Mal√°sia e Ceil√£o. O sistema extrativista da Amaz√īnia se desmorona, mas o povo j√° estava l√° e milhares de homens foram abandonados a sua sorte na selva. Acaba de forma abrupta o primeiro ciclo da borracha, at√© que, com a II Guerra Mundial a borracha brasileira volta a ser necess√°ria. Os japoneses tem 97% da produ√ß√£o mundial e em maio de 1941, os Estados Unidos assinam com o Brasil os Acordos de Washington, uma opera√ß√£o de extra√ß√£o de 45.000 toneladas de l√°tex na Amaz√īnia brasileira.

Cinquenta e quatro mil (54.000) pessoas se uniram √†s 35.000, que ainda ficavam da anterior migra√ß√£o, para serem “soldados da borracha”. O fim da guerra em 1945 e os m√©todos de s√≠ntese por hidrocarbonetos, em tr√™s anos, converteram os sonhos, em amarga realidade. Fora os que morreram de mal√°ria, febre amarela, hepatite ou ataques dos animais do mato, os que restaram acabaram sendo escravos de suas dividas. Somente 6.000 conseguiram voltar para sua terra de origem.

Comunidade rural em Tapau√°.
Escravos das circunst√Ęncias

Na década de 1950, a região do atual município de Tapauá estava ocupada por pequenas comunidades de, entre cinco e trinta famílias, ao longo do Purus, nos seringais, áreas onde abundava a árvore hevea. Junto com a seringa se extraia produtos como a castanha, sorva, madeiras, caça e pesca. A agricultura se reduzia ao autoconsumo, que não era suficiente: 70% da farinha de mandioca, alimento básico, se importava de Manaus, a capital.

O sistema econ√īmico dos ciclos da borracha era do “patr√£o” ou “coronel”. Uns poucos propriet√°rios ou arrendat√°rios tinham o controle, e seus trabalhadores, os “fregueses”, que recolhiam os frutos. O patr√£o fornecia o necess√°rio para viver e trabalhar, incluindo alimenta√ß√£o, medicamento, asseio‚Ķ

O movimento comercial entre patr√£o e fregu√™s se anotava em livros. O dinheiro n√£o se utilizava, era uma economia de troco. Muitos patr√Ķes da √°rea eram por sua vez “fregueses” das grandes companhias, propriet√°rios dos barcos que, na ida, levavam os alimentos e na volta recolhiam os produtos da selva. O “fregu√™s” estava sempre com d√≠vidas. Os produtos de primeira necessidade (a√ß√ļcar, farinha, etc) eram fornecidos a pre√ßo 20 vezes superior ao do mercado, ao mesmo tempo em que, o que se extra√≠a do mato se pagava a pre√ßos irris√≥rios.

As popula√ß√Ķes dispersas, dependentes, econ√īmica e civilmente, dos patr√Ķes, n√£o contavam com o Estado. N√£o havia educa√ß√£o, sa√ļde, justi√ßa, comunica√ß√Ķes... E as pessoas idosas acabavam na mis√©ria e solid√£o: muitas fam√≠lias abandonavam os idosos e enfermos, que n√£o podiam extrair nada do mato, pois eram uma carga muito pesada a seus olhos.

As festas religiosas eram o √ļnico lazer que existia. Reuniam as pessoas de todos os seringais pr√≥ximos. Era o momento da rela√ß√£o social, em que muitos jovens se conheciam e iniciavam novas fam√≠lias. O resto do ano podiam passar meses sem ver outros seres humanos a n√£o ser os da mesma fam√≠lia. Isto produzia altera√ß√Ķes que elevavam muito a porcentagem do problema, frente a outro tipo de sociedade, como os abusos intrafamiliares ou a explora√ß√£o da mulher.

Fruto de andiroba, hoje extensamente usado em farmácia e cosmética.
A cria√ß√£o de novos munic√≠pios e o c√Ęmbio do sistema

A criação de novos municípios veio aliviar em parte esta situação. Chegaram fundos do governo federal, construíram-se cidades (como Tapauá) com um ambiente mais urbano e com serviços sociais básicos. Bastantes famílias saíram desse sistema quase feudal, ao migrar para esses novos centros.

Nos anos 60 houve um renascer da economia extrativista, neste caso da madeira. As consequ√™ncias tem durado at√© hoje, deixando boa parte do Purus e seus afluentes, com algumas das esp√©cies de maior valor quase extintas: suma√ļma, jacarand√°, cedro, mogno, louro‚Ķ

Um caso interessante √© o da andiroba. Durante anos esta madeira foi derrubada e usada para transportar pelo rio outras madeiras mais nobres, com flutua√ß√£o muito baixa. Atadas a andiroba, se transportavam facilmente. Assim que, em Tapau√°, praticamente se extinguiu a andiroba. Hoje o √≥leo da andiroba √© um dos mais solicitados pela ind√ļstria medicinal e cosm√©tica. Quando esta demanda chegou ao mercado, em Tapau√° n√£o existia andiroba; se houvesse conservado suas reservas, teriam conseguido uma “relativa calma” econ√īmica e trabalhista.

Nos anos 80 o governo federal ofereceu cr√©ditos muito baratos, com a inten√ß√£o de novamente, por em andamento o neg√≥cio, com planta√ß√Ķes organizadas da borracha. Foi dinheiro perdido, porque o fungo microcyclus acabou com tudo.

Obras de construção da nova cidade. Acesso ao porto.
Uma nova cidade para um novo município

Escolheu-se a pequena comunidade de Boca do Ipixuna (15 fam√≠lias) para ser sede municipal, e passou a chamar-se Tapau√°, pois por lei, a sede dever ter o mesmo nome do munic√≠pio. Dia 5 de junho de 1956 se come√ßa a desmatar a √°rea. O benef√≠cio: a grande extens√£o de “terra firme” que nunca fica inundada. A desvantagem: a proximidade de √°reas de ind√≠genas que, no caso de ser reconhecidas, impediriam o crescimento da cidade assim como a falta de √°rvores de borracha, castanha ou sorva, os grandes produtores de riqueza.

Num primeiro momento Tapauá não conseguiu atrair novos habitantes; eles preferiram continuar em suas comunidades onde havia maior possibilidade extrativa. Somente onze novas famílias se transladaram até a nova cidade, em seus dois primeiros anos de existência.

Junto com a constru√ß√£o dos primeiros edif√≠cios de servi√ßo p√ļblico, houve uma tentativa de unir, por terra, a nova Tapau√° com o lago de Acar√°, na calha do Rio Madeira. S√£o 115,20 km em linha reta. Anos mais tarde, com a abertura da BR 310 entre Manaus e Porto Velho, o acesso se poderia reduzir a um ramal de 85 km da via federal at√© a cidade. Mas nunca se constru√≠ram mais do que os primeiros 12 km. O acesso a Tapau√° segue sendo exclusivamente a√©reo e fluvial.

Na área haviam reservado um espaço para uma capela católica, dedicada a Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, perto de onde está hoje a igreja matriz de Santa Rita. Os religiosos de Canutama começaram a utilizar essa capela em suas visitas e, por primeira vez, a comunidade católica local se organizou.

√Ä grande pra√ßa central, se deu o nome de “Dom In√°cio”, em homenagem ao Agostiniano Recoleto In√°cio Mart√≠nez, bispo da Prelazia de L√°brea entre 1930 e 1942, falecido por febres, durante uma de suas desobrigas na regi√£o de Tapau√°; depois trocaria seu nome pelo de Thomaz de Lima, e posteriormente, at√© hoje, por Pra√ßa Raimundo Andrade.

Os primeiros anos do município foram de dureza especial. No início dos anos de 1960, Daniel Albuquerque, o primeiro prefeito eleito nas urnas, assim definia a situação de Tapauá, três anos antes da chegada dos religiosos recoletos para permanecer ali, e cinco antes da criação da paróquia:

“A sede municipal est√° constitu√≠da em sua maior parte por casas de palha para uma popula√ß√£o paup√©rrima; atalhos entre o capim com denomina√ß√£o de avenida ou rua; pessoas desanimadas e sem nenhuma assist√™ncia; funcion√°rios p√ļblicos que recebem menos do sal√°rio m√≠nimo; servi√ßo de eletricidade perto do colapso; eros√£o grave nos barrancos dos rios que amea√ßam a pr√≥pria cidade; e pol√≠cia desmoralizada e desmotivada, com o v√≠cio da extors√£o econ√īmica ao povo”.


Historia e atualidade da Paróquia de Santa Rita
Nasce a Paróquia de Santa Rita


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Agostinianos Recoletos. Província de São Nicolau de Tolentino. Paseo de la Habana, 167. 28036 -Madrid, Espanha. Fone: 913 453 460. CIF: R-2800087-E. Inscrita no Registro de Entidades Religiosas do Ministério de Justiça, número 1398-a-SE/B. Política de privacidade.
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